Do ponto de vista de um adulto, criança tem cada uma...
Quando nós, eu e meus irmãos, éramos crianças, adorávamos passar uns dias na casa da minha avó materna. Acontece que a minha vó era “pobre-de-marré-deci” e, considerando que na minha casa tínhamos comida em excesso, porque meu pai era filho de português e ainda por cima açougueiro, era uma insanidade infantil querer ir para a casa da vovó.
Contudo, adorávamos, embora morássemos na Tijuca e a casa da vovó fosse num fim de mundo onde as ruas nem eram calçadas.
Toda vez que ficávamos de férias escolares, queríamos passar uns dias na casa da vovó.
Ela era uma figura muito gaiata, da qual ainda me lembro muito.
Uma vez, os meninos estavam no banheiro fazendo xixi e, como todos sabem, meninos fazem barulho porque o xixi cai do alto. Aí, ela ouvindo o barulho, gritou: “Ô crianças, fechem essa torneira aí no banheiro, não fiquem gastando água à-toa”. Os meninos acharam graça e nunca mais deixamos de lembrar esse episódio a cada vez que escutamos uma pessoa do sexo masculino urinar fazendo barulho.
Na casa dela, nosso café da manhã era chá de aniz (que tem gosto de erva-doce) que havia plantado no quintal e, pão sem nada dentro; ainda assim era bom.
Um dia, estava chovendo e Geraldo, meu irmão mais velho, foi buscar o pão e, como o chão estava enlameado, escorregou e caiu; rasgando um pouquinho o saco do pão que ficou um pouquinho sujo de lama. Como a vovó não tinha dinheiro para outros pães, pegou os que estavam um pouquinho sujos e ficou na pia, passando a mão bem molhada para tirar a laminha. Nesse dia, nós comemos pão úmido com chá de aniz e achamos bom assim mesmo.
Criança tem coisas que só mesmo as crianças entendem.
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