Quando eu era garota e meu pai era sócio num açougue na esquina da minha rua, eu adorava ficar brincando lá.
O balcão do açougue era em “L” e a parte do “L” que ia para o lado de dentro era fechado com um portãozinho de grade, no qual eu ficava me balançando, abrindo e fechando o portão. Era uma delícia!
Certa vez, um amigo do papai, que era enfermeiro, estava conversando com ele e viu, do outro lado da rua, num recuo ao lado do último portão do quartel do Exército (na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca), um casal discutindo e o homem plantar um tapa na cara da mulher.
O enfermeiro ficou indignado, atravessou a rua e deu um soco na cara do homem que fez sair até um pouco de sangue do canto da boca. Penalizado, pegou o cara pelo braço e levou no açougue para ele ir na pia, que ficava no lado fechado do “L”, lavar o rosto.
Esperto, papai pegou todas as facas (enormes) que ficavam sobre o balcão, nessa parte do “L”, e colocou sob o balcão, embaixo de uns jornais. Só que ele não foi tão malandro, porque esqueceu o machado que estava espetado no cêpo de madeira (lugar onde se cortavam as carnes naquela época).
Aí, o cara depois de lavar o rosto, passou rapidamente a mão no machado e saiu correndo atrás do enfermeiro que o havia agredido.
Como o enfermeiro entrou no portão do quartel, que estava aberto, o cara, do lado de fora, arremessou o machado que bateu na nuca do enfermeiro e o derrubou.
Socorrido pelos soldados, o enfermeiro foi hospitalizado e o médico disse que o machado havia ficado encravado a 2 milímetros da coluna dele, se fosse um pouquinho mais à esquerda ele teria ficado tetraplégico. Foi uma proteção divina.
O cara, é claro, foi agarrado pelos soldados e preso. Não sei o que aconteceu com ele depois porque ninguém conta essas histórias para crianças e eu devia ter mais ou menos 8 anos.
O enfermeiro ficou completamente curado, mas deve ter aprendido que “em briga de marido e mulher, não se deve meter a colher”.
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